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É preciso conciliar Cronos e Kairós, por Carlos Júlio

Séculos antes de Cristo, os gregos já entendiam a complexidade do tempo. Em um esforço para contemplá-la e traduzi-la para os mortais comuns, criaram duas divinda- des para dar corpo às duas facetas do tempo: Cronos e Kairós.

Cronos é o deus do tempo que se conta. O tempo tal como o conhecemos, contado em dias e noites, que compõem anos divididos em estações nas quais se planta e se colhe. O tempo inevitável e irrevogável. Segundo a mitologia, Cronos devorava seus filhos assim que nasciam. Mas o caçula, Zeus, escapou e cresceu longe da influência paterna.

Mais tarde, Zeus voltou e fez Cronos vomitar os cinco filhos que engolira – e, ao vencer o deus do tempo, virou imortal como os irmãos. Começou o governo de Zeus sobre o mundo.

Zeus teve filhos com várias divindades e uma delas foi Tique, deusa da fortuna e da prosperidade, que lhe deu Kairós. Segundo a mitologia, Kairós era um jovem belo, com asas nos ombros e nos joelhos, ágil e atlético. Para os gregos, Kairós simbolizava o tempo que não pode ser cronometrado, que se refere aos momentos que se eternizam na memória. Um tempo livre, que não se mede em horas, dias e meses, e sim em experiências. Os gregos acreditavam que Kairós era a única divindade com potencial para derrotar o poderoso Cronos, e por isso dedicavam a ele especial apreciação.

O conflito entre esses dois tempos, Cronos e Kairós, tempo externo e interno, está na raiz

da ansiedade, a grande doença do mundo moderno. Quem não entender e não souber conjugar a dinâmica entre eles correrá um risco real de sabotar a própria vida e carreira.

Medimos o tempo há milhares de anos e o que sabemos dele? Passamos a vida divididos entre dois tempos, sem saber como conciliá-los. Afinal, o tempo de Cronos, a exemplo da divindade mitológica, é um tempo tirano, que nos persegue com seu chicote cobrando execução e pontualidade. O tempo de Kairós é o tempo que desejamos, com qualidade, realizações, felicidade; mas, como o deus que simboliza, é fugaz, volátil.

A poeta brasileira Adélia Prado foi uma que compreendeu Cronos e Kairós como antagô- nicos e escreveu: “... a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos”.

Podemos dominar Cronos com uma agenda meticulosa e cumprida à risca, mas isso não garantirá nossa felicidade, porque ela precisa de Kairós. É nesse equilíbrio delicado que conquistamos uma vida mais feliz.

Então, o que fazer, na prática? Tudo depende de uma decisão pessoal. Assim como pensa em Cronos, você deve sempre perguntar-se: onde está seu Kairós? Como você cuida dele?

* Estes são os highlights adaptados do livro O que eu não posso deixar de fazer hoje?, de Carlos Júlio (editora Planeta).

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